terça-feira, 11 de outubro de 2016

Aspetos estruturantes do Sermão de Santo António aos Peixes


Intertextualidade com Padre António Vieira - Texto de Ricardo Araújo Pereira

Este país não é para corruptos
Portugal é um país em salmoura. Ora aqui está um lindo decassílabo que só por distração dos nossos poetas não integra um soneto que cante o nosso país como ele merece. “Vós sois o sal da terra”, disse Jesus dos pregadores. Na altura de Cristo não era ainda conhecido o efeito do sal na hipertensão, e portanto foi com o sal que o Messias comparou os pregadores quando quis dizer que eles impediam a corrupção. Se há 2 mil anos os médicos soubessem o que sabem hoje, talvez Jesus tivesse dito que os pregadores eram a arca frigorífica da terra, ou a pasteurização da terra. Mas, por muito que hoje lamentemos que a palavra “pasteurização” não conste do Novo Testamento, a referência ao sal como obstáculo à corrupção é, para os portugueses do ano 2010, muito mais feliz. E isto porque, como já deixei dito atrás com alguma elevação estilística, Portugal é um país em salmoura: aqui não entra a corrupção – e a verdade é que andamos todos hipertensos.

Informação Complementar - Padre António Vieira - Sermão de Santo António aos Peixes

O mais conhecido dos sermões de Vieira: “O Sermão de Santo António aos peixes”
Escolhendo como auditório, e à semelhança do ocorrido outrora com Santo António, em Itália, os peixes, já que os homens (neste caso os colonos de São Luís do Maranhão, em 1663) pare- cem ser maus ouvintes e não aceitar a pregação, Vieira elabora uma ampla alegoria em que se propõe louvar, por um lado, e criticar, por outro, os peixes (atribuindo-lhes qualidades que não encontra nos homens, no primeiro caso, e criticando-lhes defeitos comuns aos mesmos homens, no segundo caso).

Informação complementar - Padre António Vieira

O imperador da língua portuguesa

Padre António Vieira, figura incontornável da língua portuguesa, afirmava no Sermão de Santo António aos Peixes que “os homens, com suas más e perversas cobiças, vêm a ser como os peixes que se comem uns aos outros [...] e os grandes comem os pequenos”. Mal sabia o jesuíta que esta alegoria se adequaria à sua vida. Depois de ter sido nomeado pregador da corte por D. João IV, acabou perseguido e preso pela Inquisição, tendo-lhe valido a proteção do Papa Clemente X.

Síntese das virtudes dos peixes referidos no capítulo III do Sermão de Sto António aos Peixes


Capítulo IV do Sermão de Santo António aos Peixes - alguns apontamentos